(Re)verso da Paisagem

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Março 2014
2020


JORGE, G. (Coord.), 2013. O (Re)verso da Paisagem – Filosofias da Pobreza e da Riqueza. Faculdade de Arquitectura – Universidade de Lisboa. 271 pp. | ISBN: 978-972-9346-35-4

Livro disponível para aquisição presencial nos gabinetes 6.1.12 e 6.1.14 da FA-ULisboa ou envio por correio (nacional ou internacional). Mais informações: arquitecturas.mar@fa.ulisboa.pt
Em toda a Paisagem podemos sempre encontrar um verso e um reverso. Por verso entenderemos aquilo que se vê, enquanto que por reverso, aquilo que se não vê – em qualquer caso, de um determinado ponto de vista. Poder-se-á considerar que existe uma relação dialéctica entre verso e reverso como entre ricos e pobres? Talvez, mas o que é certo, e eventualmente importante, é que as duas faces da Paisagem só são distinguíveis e compreensíveis quando se apresentam em oposição.
É que pontos de vista diferentes darão azo a vivências também diferentes e a paisagem, enquanto construção cultural, situada no espaço e no tempo, corresponde sempre a uma certa expectativa de quem a vê. A essa expectativa não serão estranhos, obviamente, os juízos económicos que percorrem um vasto campo de significação que vai da função à beleza.
Mas Paisagem, na condição de algo assim construído, implicará sempre a existência de um seu reverso, da mesma maneira que uma peça de roupa ou um cenário de teatro implicam, respectivamente, um forro e uns bastidores. Dever-se-á isso ao facto de, à semelhança de qualquer dispositivo espacial de representação, a percepção daquilo a que chamamos paisagem, como tal, só ser possível com o concurso de uma ilusão, por vezes sustentada materialmente? A esta pergunta pode juntar-se outra. Que representa a paisagem? Ou, mais concretamente, onde vai a paisagem pedir emprestado o seu sentido?
É verdade que dispomos de respostas simplificadas quando evocamos o nosso reportório de conceitos ambientais, as nossas experiências poéticas (sempre culturalmente codificadas) ou o mito. Em qualquer dos casos, algo se desenvolve aqui como um processo sempre dinâmico.
E, de facto, é a partir do seu reverso que o, por assim dizer, mecanismo da paisagem funciona. Aquilo que é necessário promover, preservar ou recuperar exige o emprego de determinados meios e a mobilização de competências e, muitas vezes, da consciência do próprio público. Por isso mesmo, não existe, em rigor, paisagem absolutamente natural. A presença do Homem, imprescindível ao reconhecimento da sua existência, vem perturbar-lhe a solidão. Estranhamente, toda a potência comunicativa da paisagem assenta aí mesmo.
Nos últimos cinco séculos ensinaram-nos a olhar para a Paisagem de modos específicos, familiarizando-nos com aquilo a que agora estamos a chamar o seu verso. Conseguiremos, agora, numa tentativa de elementar pedagogia, apreciar o seu actual reverso: onde, de um modo mais ou menos surdo, actua tudo aquilo que não deve ser visto, como os caboucos rudes de um palácio? Até porque, pelo verso e o reverso, a Paisagem é algo que merece a todos os títulos ser revisto como construção e como conceito.
Aqui ficam reunidas as tentativas desenvolvidas no contexto do Seminário “O (Re)verso da paisagem – Filosofias da Pobreza e da Riqueza