Espécies de Espaços - A Casinha dos Prazeres

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Julho 2013
2020
A Casinha dos Prazeres
Jean-François de Bastide
com desenho de Álvaro Siza Vieira

Jean-François de Bastide (Marselha, 1724 – Milão, 1798), o autor deste A CASINHA DOS PRAZERES, que hoje se dá pela primeira vez em português, encontra-se entre os cultores da literatura libertina, embora quase todas as suas
obras tenham passado praticamente despercebidas e não lhe tenham sequer granjeado um lugar no panteão dos autores libertinos do seu século: Duclos, Voisenon, Restif de la Bretonne, Chevrier, Dorat.
Ora, este La petite maison não é bem um conto erótico, a não ser porque tem atado na ponta a fantasia da sedução. Na realidade, é muito mais uma narrativa de métodos e modelos arquitetónicos do que um repertório de estratagemas e lances amorosos. Ou é também isto, mas por causa daquilo. O texto resulta da colaboração de Bastide com o mestre e crítico de arquitetura Jacques-François Blondel, tendo sido publicado pela primeira vez em 1753 (a versão aqui trabalhada é a de 1763, que apareceu nos Contes de Bastide). Nele, a casinha dos prazeres do marquês de Trémicour ergue-se como personagem de uma intriga muito simples, que tem como base uma aposta: o marquês acha que a casinha chegará para seduzir a jovem Mélite; Mélite aposta que não. Mas a casinha é uma espécie de dueña ou alcoviteira ao serviço do sedutor. Adivinhe o leitor qual é o desenlace deste desafio…
De facto, a casinha tão exaustivamente descrita por Bastide não podia deixar de ser um prodígio, embora, transcrita em palavras, nos aguce o apetite para uma qualquer reencenação das múltiplas maravilhas aí descritas (Peter Greenaway pelava-se por tê-la como cenário de um dos seus filmes). O livrinho foi escrito em pleno apogeu do rocaille tão ao gosto de Luís XV e da sua inseparável Madame de Pompadour. Ao leitor contemporâneo espantará o inquietante horror ao vazio desvelado pela narrativa. Mas o gosto da época era assim; Mélite extasia-se com as preciosidades (quantas mais melhor), às quais atribui o mais alto valor. Daí aos braços de Trémicour vão os braços de uma poltrona.
ANTÓNIO MEGA FERREIRA (da Apresentação)

Os espaços construídos na literatura, inventados ou evocando lugares reais tiveram sempre uma imensa influência no modo como vemos a cidade, a rua, a praça, a casa e o palácio, a nave e o quarto. São construções mentais e
materiais que atravessam o arco do tempo e deram passagem a outra escrita e pensamento, da sociologia, da historiografia, da teoria e da crítica em arquitectura. É, porém, a eloquência verbal da literatura que dá ao silêncio aparente e grave da arquitectura uma voz que esta colecção ESPÉCIES DE ESPAÇOS, que toma de empréstimo o título de Georges Perec de 1974, pretende apresentar, sempre acompanhada por desenhos ou ilustrações.
SUSANA OLIVEIRA (da Apresentação)


Autor Jean-François de Bastide
Colecção ESPÉCIE DE ESPAÇOS
Dirigida por Susana Oliveira
Tradução e apresentação António Mega Ferreira
Desenhos Álvaro Siza Vieira
Design e logótipo convidado Luís Mendonça